Governança de marca: porque crescer sem regras internas é criar instabilidade
Há um momento particularmente perigoso na vida de uma marca.
Não é quando nasce. Nessa fase, normalmente, poucas pessoas decidem, todos sabem o que está a acontecer e a proximidade entre quem criou o negócio e quem o executa resolve grande parte das inconsistências.
O problema começa quando a empresa cresce.
Entram pessoas. Surgem departamentos. Contratam-se agências. Aparecem novos produtos. Abrem-se novos mercados. Multiplicam-se apresentações, campanhas, propostas comerciais, redes sociais, fornecedores e decisões.
E aquilo que antes estava na cabeça de duas ou três pessoas passa a ser interpretado por vinte, cinquenta ou quinhentas.
É aqui que muitas empresas descobrem, demasiado tarde, que ter uma marca não significa saber governá-la.
Uma empresa pode ter um excelente logótipo, um manual de identidade impecável, um website sofisticado e uma estratégia de posicionamento muito bem construída. Se não existirem regras sobre quem decide, quem pode alterar, como se comunica, o que é inegociável e como a marca deve ser aplicada no negócio, começa inevitavelmente a fragmentar-se.
É para evitar essa fragmentação que existe a governança de marca.
E não: não é mais um documento de branding para guardar numa pasta.
É gestão.
Afinal, o que é governança de marca?
Governança de marca é o conjunto de princípios, responsabilidades, processos, critérios e mecanismos de decisão que permitem a uma organização gerir a sua marca de forma coerente ao longo do tempo.
Na prática, responde a perguntas muito concretas:
Quem é responsável pela marca?
Quem pode aprovar uma campanha?
Até onde uma equipa local pode adaptar a comunicação?
Que elementos da identidade podem mudar?
Como se cria um novo produto sem enfraquecer a marca principal?
Quem aprova uma parceria?
Como devem fornecedores externos utilizar a marca?
Que linguagem não deve ser utilizada?
O que acontece quando marketing, comercial e administração têm opiniões diferentes?
Quem decide?
Estas perguntas parecem operacionais. Na realidade, são profundamente estratégicas.
Porque uma marca começa a perder força quando cada pessoa passa a decidir o que a marca significa.
O crescimento amplifica tudo — incluindo a desorganização
Enquanto uma empresa é pequena, muitos problemas de marca ficam escondidos.
O fundador revê os textos. A mesma pessoa aprova as campanhas. O designer conhece a empresa há anos. A equipa comercial sabe intuitivamente como apresentar os serviços.
Há uma espécie de governança informal.
Funciona — até deixar de funcionar.
Quando a empresa cresce, essa dependência de conhecimento informal transforma-se num risco.
O novo colaborador não sabe aquilo que “toda a gente sabe”.
A agência externa interpreta o posicionamento à sua maneira.
O departamento comercial cria uma apresentação diferente.
Recursos Humanos comunica a empresa de uma forma.
Marketing comunica de outra.
A administração anuncia uma nova área de negócio sem avaliar o impacto sobre o posicionamento existente.
Entretanto, ninguém está propriamente a fazer algo “errado”.
Esse é precisamente o problema.
Quando não existem regras, cada pessoa pode estar individualmente certa e a marca, coletivamente, completamente errada.
Governança não é controlo criativo
Existe uma resistência frequente à criação de regras de marca porque estas são confundidas com burocracia.
“Não queremos limitar a criatividade.”
“Cada mercado é diferente.”
“As equipas precisam de autonomia.”
Tudo isto pode ser verdade.
Governança não significa transformar uma organização numa polícia do logótipo.
Significa estabelecer limites suficientemente claros para permitir autonomia sem destruir coerência.
Uma boa governança não diz às equipas o que pensar em cada situação. Dá-lhes critérios para conseguirem tomar boas decisões quando surgem situações novas.
Essa distinção é fundamental.
Uma organização madura não necessita que todas as decisões passem pela mesma pessoa. Precisa de garantir que pessoas diferentes conseguem decidir dentro da mesma lógica de marca.
O manual de identidade não resolve este problema
Este é outro equívoco comum.
Uma empresa cria um brand book e acredita que passou a ter governança.
Não necessariamente.
Um manual pode determinar que determinada cor tem um código específico, estabelecer margens de segurança do logótipo, definir tipografias ou apresentar exemplos de aplicação.
Tudo isso é importante.
Mas não responde a questões como:
Podemos lançar esta submarca?
Este novo serviço faz sentido dentro do nosso posicionamento?
Podemos associar-nos a este parceiro?
Quem tem autoridade para alterar uma mensagem institucional?
Como devemos comunicar uma crise?
Um país pode adaptar o slogan global?
Quem controla a utilização da marca por franchisados, parceiros ou fornecedores?
Quando devemos considerar um rebranding?
O manual explica como utilizar determinados elementos da marca.
A governança estabelece como tomar decisões sobre a marca.
São coisas diferentes.
Uma marca não pertence ao departamento de Marketing
Talvez este seja um dos erros mais caros na gestão de marcas.
Tratar a marca como responsabilidade exclusiva do Marketing.
Marketing pode ser guardião da marca. Pode coordenar a comunicação. Pode assegurar consistência. Mas aquilo que o mercado entende como marca é produzido por praticamente toda a organização.
A promessa pode ser criada pelo Marketing.
Depois tem de ser cumprida pelas Operações.
É vendida pela equipa Comercial.
É experimentada pelo cliente.
É defendida — ou destruída — pelo Serviço ao Cliente.
É vivida pelos colaboradores.
É condicionada pelas decisões da Administração.
É exposta através das pessoas que representam publicamente a empresa.
É afetada pelos parceiros que escolhemos.
Por isso, governança de marca é também governança organizacional.
Não podemos prometer proximidade e criar processos hostis.
Não podemos posicionar-nos como premium e competir permanentemente através de desconto.
Não podemos comunicar inovação e ter uma experiência digital medíocre.
Não podemos defender sustentabilidade na publicidade e ignorá-la nas decisões operacionais.
Quando aquilo que a empresa diz e aquilo que a empresa faz começam a divergir, o problema já não é de comunicação.
É de marca.
As regras que uma marca precisa de ter
Não existe um modelo universal. Uma empresa familiar com quinze pessoas não necessita da mesma estrutura de uma organização internacional com centenas de colaboradores.
Mas há áreas que devem estar claras.
1. Propriedade e responsabilidade
Tem de existir alguém — pessoa, função ou estrutura — responsável por proteger a coerência da marca.
Responsabilidade difusa costuma significar responsabilidade inexistente.
2. Princípios não negociáveis
Toda a marca deve saber o que pode evoluir e aquilo que não deve ser comprometido.
Propósito, posicionamento, promessa, valores, princípios de experiência ou determinados elementos de identidade podem fazer parte deste núcleo.
3. Critérios de decisão
As equipas precisam de saber segundo que critérios devem avaliar campanhas, parcerias, novos produtos, conteúdos, eventos ou outras iniciativas.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Gostamos?”
E passa a incluir:
“Isto reforça ou enfraquece aquilo que decidimos que esta marca deve representar?”
Essa é uma conversa completamente diferente.
4. Níveis de aprovação
Nem tudo necessita da aprovação da administração.
Mas também não deve ser possível alterar elementos estratégicos da marca porque alguém decidiu fazê-lo numa terça-feira à tarde.
É necessário definir níveis de autonomia e aprovação proporcionais ao impacto da decisão.
5. Arquitetura de marca
À medida que a empresa cresce, começam frequentemente a aparecer novas marcas, submarcas, produtos, programas e serviços.
Sem arquitetura, nasce o caos.
É preciso definir quando utilizar a marca principal, quando criar uma extensão, como nomear novas ofertas e em que circunstâncias uma nova marca é realmente necessária.
6. Gestão de ativos
Logótipos, fotografias, apresentações, templates, mensagens institucionais, documentos comerciais e outros ativos precisam de versões oficiais e acessíveis.
Quando ninguém sabe onde está “a versão certa”, cada pessoa começa a criar a sua.
7. Gestão de parceiros
Agências, designers, assessorias, distribuidores, franchisados, influenciadores e outros parceiros também representam a marca.
Dar acesso ao logótipo não é dar orientação suficiente para representar uma empresa.
8. Proteção
A governança deve também considerar a proteção dos ativos relevantes da marca.
Nomes, sinais distintivos, domínios, propriedade intelectual e outros elementos estratégicos não devem ser tratados apenas quando surge um conflito.
Proteção também é gestão.
A governança torna-se ainda mais importante quando a empresa tem várias marcas
Há organizações que não têm uma marca.
Têm um ecossistema.
Uma empresa-mãe. Duas marcas comerciais. Uma academia. Cinco programas. Uma nova plataforma. Produtos com nomes próprios. Projetos paralelos. E, alguns anos depois, ninguém consegue explicar facilmente a relação entre tudo.
Este crescimento orgânico é muito comum.
E pode tornar-se caro.
Porque cada nova marca exige identidade, comunicação, notoriedade, proteção, conteúdos, investimento e gestão.
Antes de criar mais uma, alguém deveria perguntar:
Precisamos realmente de outra marca?
Governança também é saber dizer não.
O verdadeiro risco não é ficar “menos bonito”
Quando uma empresa perde controlo sobre a marca, o primeiro sintoma pode parecer visual.
Logótipos utilizados incorretamente.
Apresentações diferentes.
Cores que variam.
Mensagens inconsistentes.
Mas estes são apenas os sinais mais visíveis.
O risco real é empresarial.
É uma equipa comercial que vende uma promessa diferente daquela que Operações consegue entregar.
É um novo produto que confunde o posicionamento.
É uma campanha que aumenta notoriedade e diminui credibilidade.
É uma parceria incompatível com os valores defendidos publicamente.
É uma expansão internacional que fragmenta a identidade.
É uma empresa que cresceu tanto que deixou de conseguir explicar, numa frase, aquilo que representa.
A inconsistência visual incomoda. A inconsistência estratégica custa dinheiro.
E quando não existem regras, quem manda na marca?
Normalmente, a pessoa com mais poder naquele momento.
O fundador.
O CEO.
O diretor comercial.
O novo diretor de marketing.
A agência.
O maior cliente.
O mercado.
E uma marca não pode mudar de direção sempre que muda a pessoa que tem mais influência sobre ela.
Claro que as marcas devem evoluir.
Algumas precisam mesmo de mudar profundamente.
Mas evolução deliberada é estratégia; mudança permanente por ausência de critérios é instabilidade.
Uma empresa deve conseguir distinguir as duas.
Governança não significa impedir a mudança
Pelo contrário.
Uma boa estrutura de governança torna a mudança mais segura.
Quando sabemos claramente aquilo que define a marca, conseguimos perceber melhor aquilo que pode evoluir.
Podemos modernizar a identidade.
Entrar noutro mercado.
Alterar produtos.
Adotar novos canais.
Rever linguagem.
Experimentar formatos.
Responder a mudanças culturais.
Incorporar tecnologia.
A coerência não exige imobilidade.
Exige que a mudança tenha uma razão.
Marcas fortes não são aquelas que nunca mudam. São aquelas que conseguem mudar sem deixar de ser reconhecíveis — e sem esquecer aquilo que as tornou relevantes.
A comunicação interna é onde grande parte da governança começa
Não basta escrever regras.
As pessoas precisam de as conhecer, compreender e conseguir aplicar.
Se apenas a equipa de Marketing conhece o posicionamento, não existe verdadeiramente posicionamento organizacional.
Se o Comercial desconhece a promessa de marca, vai criar a sua própria.
Se Recursos Humanos não compreende os valores, dificilmente conseguirá traduzi-los na experiência de candidato e de colaborador.
Se a liderança não respeita os princípios definidos, nenhum manual os salvará.
Governança exige comunicação interna, formação e responsabilização.
Em organizações maiores, pode justificar onboarding de marca, sessões regulares, bibliotecas de ativos, responsáveis locais, processos de aprovação e revisões periódicas.
Mas há uma regra transversal a qualquer dimensão:
as pessoas só conseguem proteger aquilo que compreendem.
Quando deve uma empresa começar a pensar em governança de marca?
Antes de achar que precisa.
Há alguns sinais particularmente claros:
a empresa cresceu rapidamente;
existem várias pessoas ou equipas a comunicar;
há diferentes marcas ou unidades de negócio;
foram contratadas várias agências ou fornecedores;
a empresa está a internacionalizar-se;
cada apresentação comercial parece pertencer a uma empresa diferente;
os colaboradores têm dificuldade em explicar o posicionamento;
estão constantemente a surgir novos nomes, produtos ou submarcas;
há discussões recorrentes sobre “como devemos comunicar isto?”;
a experiência entregue deixou de acompanhar a promessa;
ou o fundador continua a ter de aprovar absolutamente tudo.
Esse último ponto merece atenção.
Se a marca só consegue manter coerência enquanto uma pessoa controla todas as decisões, não existe governança. Existe dependência.
E dependência não escala.
Uma marca preparada para crescer precisa de saber governar-se
Durante muito tempo, o branding foi tratado essencialmente como uma questão de criação: criar o nome, o logótipo, a identidade, o website, a campanha.
Mas empresas maduras precisam de ir além da criação.
Precisam de gestão.
Precisam de proteção.
Precisam de critérios.
Precisam de responsabilidades.
Precisam de saber como integrar novas pessoas sem reinventar a empresa de cada vez que alguém chega.
Precisam de conseguir crescer sem multiplicar incoerências.
Porque chega um momento em que o maior desafio já não é construir uma marca.
É impedir que o crescimento a desfaça.
E talvez esta seja a forma mais simples de compreender governança de marca:
Governança é aquilo que permite que uma marca continue a ser ela própria quando já existem demasiadas pessoas, decisões e interesses para depender apenas do bom senso.
Crescer é importante.
Mas crescer sem regras pode transformar aquilo que deveria aumentar o valor da marca na principal causa da sua fragmentação.
Uma marca forte não é apenas bem criada. É bem gerida, bem protegida e bem governada.
A sua empresa cresceu. A sua marca cresceu com ela?
Na Brand Managers, ajudamos empresas a estruturar marcas preparadas para crescer: posicionamento, arquitetura, regras de utilização, processos de decisão, proteção e governança.
Porque quando uma marca começa a valer mais, deixar a sua gestão ao acaso deixa de ser uma opção.
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